domingo, 26 de janeiro de 2014

Como você está Gabriel?

            Certamente ela quis saber, de uma forma amigável, se estou bem ou mal, mas aquela pergunta, aos meus ouvidos, se tornou difícil de responder. Meus pensamentos voaram para longe e comecei a refletir sobre como realmente estou, sobre como serei, sobre como fui, sobre como tenho saudade de ser e me vi perdido naquele instante. Não sabia se respondia como eu fui de manhã logo que acordei, ou se falava como estive enquanto preparava o almoço.
De fato, um turbilhão de pensamentos invadiu minha mente. Lembrei-me de quando ainda era criança que só queria brincar e faltava à companhia ideal, mas isso não fazia diferença na época, meus cachorros eram a companhia certa naquele momento, caso contrário, eles não estariam ali.
Aquelas lembranças foram torturando meu ego tão rapidamente, como o tempo, que voou sem que eu percebesse que a criança brincalhona se transformou num adolescente preocupado em ser notado, e não esquecido pelos colegas de escola. Minha preocupação virou objetivo. Em pouco mais de quatro anos me tornei conhecido, procurado, o “Gap”, ainda sonhador e ingênuo, apesar das companhias. Meu nível de status havia subido, e muito. Sempre estive com mais de duas pessoas ao redor, pensava que seria assim sempre, pensava...
No ano seguinte, problemas de saúde me forçaram a mudar de pensamento e de rotina, me afastei [ou se afastaram, não sei ainda quem se afastou] dos meus antigos “colegas” e restaram os verdadeiros amigos. E foi nesse ano, que tomei a decisão da vida, mudar de cidade, e fui. Para longe. Aquela criança brincalhona, o adolescente preocupado agora é o rapaz sonhador.
Enquanto a pergunta ainda ecoava pelos ouvidos, pensei em responder que estou com saudade das manhãs e noites geladas daquela cidade, pois desde que voltei, há quase dois anos, meu coração não pulsou mais como pulsava ao sentir aquelas brisas frias, mas não respondi, ela não merecia ser vítima dos meus ataques de arrependimento. Ah como eu amo o frio...
A verdade é que eu queria ser ouvido, quis falar sobre minhas preocupações, minhas decepções, meus afetos e meus sonhos, minhas reconstruções e minhas conquistas, mas ela não queria saber disso [ou se queria eu não sei, estava perturbado demais para distinguir].
Para ser mais positivo pensei em dizer simplesmente que estou esperançoso com o início de 2014, feliz com essa maneira divertida que tenho de ver a vida e ansioso com as aulas na faculdade, mas... Mas tive medo, medo de onde essa conversa poderia me levar, eu não queria que isso parecesse uma fuga do passado, o que provavelmente iria parecer [mesmo não sendo] se a próxima pergunta fosse: “Por que você se interessou por Engenharia?”. A resposta ficaria meio vaga: “Oras, não existe um motivo racional para eu me interessar por algo, sou um sonhador, alguém apaixonado pelo novo, pelo que encanta!”. Se ela tivesse um bom senso crítico, perceberia a essência da vida nesse trecho: “(...) apaixonado pelo novo, pelo que encanta!”. Afinal de contas, a vida é um eterno recomeço. Uma constante mudança. Então por que não nos apaixonar pelo novo todos os dias?
Enfim, com esse tumulto de memórias indo e vindo, a pergunta soando nos meus ouvidos, a mistura de sentimentos invadindo meu coração, o medo do questionamento referente à minha maneira apaixonada de viver, fizeram-me, naquele momento, naquele lugar, naquele olhar dizer apenas: “Bem, eu estou bem”!

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